Durante a Headscon Acre, Theo Azevedo, Philipp Bomm e Antonio Guaranys detalharam desafios e oportunidades reais por trás das carreiras na indústria
Por José Elias Rodolfo, da Agência Collab na Headscon Acre
Trabalhar com jogos atualmente significa lidar com orçamentos milionários, influência de criadores de conteúdo, pressão por resultados e um mercado que muda de rumo a cada dois anos. Essa foi a síntese do painel “Carreiras em Games” realizado no auditório principal da Headscon Acre 2025, na tarde da última quarta-feira (19), com a participação de Theo Azevedo (Theogames), Antonio Guaranys (Hermit Crab / Mentorias Games Brasil) e Philipp Bomm (Gamewise / Forjageek / D20culture).
Ao longo da conversa, o trio de especialistas reforçou o ponto central de que a paixão por jogos costuma ser o começo de tudo, mas é a visão de negócios que garante permanência na área.
Theo Azevedo começou resumindo a fase em que comandou o portal UOL Jogos: “Nossa missão era desmistificar o assunto, conversar com o grande público”. Jornalista especializado por mais de 20 anos, ele deixou a redação em 2018 para fundar a Theogames, agência de comunicação focada apenas na área de games. Hoje, lidera um time de cerca de 100 profissionais espalhados pela América Latina, oferecendo serviços que vão de assessoria de imprensa à gestão de redes sociais e campanhas com influenciadores.
Tal transição só foi possível, ele explicou, porque nunca olhou para os jogos apenas como entretenimento, mesmo em seus tempos de repórter. “Eu sempre me interessei muito pelo aspecto de negócios do mercado, em entender as diferentes funções, quem entrega o quê e por quê”, contou.
Ao mesmo tempo, Theo deixou um alerta para quem quer começar a atuar no segmento. Para ele, atualmente a indústria do entretenimento eletrônico disputa atenção com todo o restante da cultura pop.
“Os jogos não competem mais somente entre si, competem com outras formas de entretenimento. A moeda mais valiosa é o tempo e o engajamento de quem está do outro lado da tela”, ele disse, exaltando profissionais capazes de transitar por games, streaming, redes sociais e cultura pop.

Theo Azevedo, dono da agência Theogames e curador da Headscon, falou sobre sua trajetória de quase três décadas trabalhando com comunicação. (Divulgação/Headscon)
ESports: Mercado com dinheiro, mas pouca estrutura
Se Theo Azevedo representou o lado da imprensa e da comunicação, Philipp Bomm trouxe a visão de quem ajudou a erguer a cena de esportes eletrônicos no Brasil quando quase nada existia.
Advogado de formação, Philipp foi jogador profissional de Counter-Strike entre 2004 e 2007, montou estúdio “na sala de casa” e também passou por frustrações em sua trajetória. “Eu parei de jogar porque tomava calote de premiação. Não valia o estresse”, relembrou ele, que também é um dos curadores da Headscon.
Na visão de Philipp, o maior gargalo atual é comercial. “Hoje, ainda é deficitária no Brasil a nossa capacidade de vender produtos e ideias”, avaliou. Segundo ele, valores de produção estão em patamares próximos aos da Europa, mas os budgets das publishers encolheram, especialmente entre as empresas chinesas, o que deve apertar ainda mais o setor nos próximos anos.
Outro ponto sensível seria a concentração de recursos nas mãos de influenciadores. “Quando a marca vai direto no influenciador, 80% a 90% da receita do budget inteiro fica com ele”, apontou Philipp. Com isso, afirmou, sobra menos dinheiro para produtoras, equipes de operação, eventos estruturados e empregos de longo prazo.
O curador também desmentiu a ideia de “dinheiro rápido” ligada aos eSports, afirmando que só começou a lucrar de fato com a área por volta de 2019: “Foram sete anos em que o mercado não tinha dinheiro suficiente para compensar o esforço. O que segurava era a paixão”.

Antonio Guaranys e Philipp Bomm ofereceram suas visões sobre diferentes setores do mercado de games. (Divulgação/Headscon)
Mentorias, transição de carreira e a importância do networking
Responsável por mediar o painel, Antonio Guaranys levou a perspectiva de quem está dentro de uma empreitada bem-sucedida, como Business Developer do estúdio Hermit Crab, de Porto Alegre (RS). Ao mesmo tempo, ele atua na formação de novos profissionais com o projeto Mentorias Games Brasil, entidade sem fins lucrativos dedicada à educação e carreiras em games.
Guaranys reforçou que o mercado brasileiro segue aquecido, mas cada vez mais competitivo, e que muitos profissionais estão migrando de áreas tradicionais para trabalhar com games. Nesse cenário, iniciativas de mentoria ajudariam a encurtar caminhos, localizar as vagas e compreender o que é exigido pelas empresas.
Ao comentar o papel do networking, Theo descreveu seu próprio salto do jornalismo para o empreendedorismo. “Quando saí do UOL, surgiram oportunidades que só apareceram porque eu já não estava mais lá”, disse. “A agência nasceu para abrir um CNPJ, para eu conseguir entregar esses projetos”.
Ao final, o trio concordou em alguns conselhos para quem pretende entrar ou permanecer no setor:
Paixão é só o começo: trabalhar com o que se ama não imuniza contra burnout, cortes de orçamento ou crises de mercado;
Versatilidade é um diferencial: escrever, gravar vídeo, lidar com comunidade, entender métricas, negociar contratos. Quem “joga em várias posições” tem mais espaço;
Games são negócios: de agências a equipes de eSports, tudo depende de resultado comercial para sobreviver;
Tempo de estrada pesa: em um mercado em que “quem está há cinco anos já se sente velho”, como argumentou Philipp, construir reputação e histórico é o que sustenta as próximas oportunidades.
Entre dados duros, histórias pessoais e bastidores de contratos milionários, o painel deixou claro que a indústria de videogames continua sedutora, mas exige cada vez mais profissionalismo de quem sonha em transformar uma paixão em carreira.