Painel durante a Headscon Acre 2025 reuniu representantes dos setores de jogos digitais e analógicos para debater o empreendedorismo cultural no Brasil
Por Álefy, da Agência Collab na Headscon Acre
Os jogos de tabuleiro – ou board games – deixaram há muitos anos de ser mera brincadeira e se tornaram um negócio dos mais rentáveis. E um dos motivos é a comunidade apaixonada, vibrante – e, claro, disposta a gastar com o próprio entretenimento. Mas nem sempre é possível conciliar a alegria de jogar com a obrigação. Essas são algumas das conclusões de uma roda de conversa que aconteceu na Headscon Acre 2025, em Rio Branco, sobre a possibilidade de conciliar a paixão e a profissão. Estiveram no Sesc Bosque figuras nacionais e locais do segmento.
Peterson Rodrigues, diretor da D20 Culture e envolvido no desenvolvimento de jogos de grandes franquias, como Harry Potter e O Senhor dos Anéis, disse que existe uma grande distância entre estar envolvido nesse segmento como hobby e como negócio. Segundo ele, é preciso abrir mão de muita coisa (inclusive jogar). Também destacou que muitos negócios tem a sorte de estar no lugar certo e na hora certa, sendo importante a presença em eventos como a Headscon para networking e trocas de ideias que, depois, podem se tornar novos negócios.
Também participaram da conversa Gabriel Dantas e Fernanda Freitas, fundadores da locadoras de board games Luddu Us Play, do Acre, que nasceu de uma pesquisa de mestrado de Dantas. Os dois também são professores e usam metodologias de gamificação na docência.
Segundo eles, apesar da resistência inicial por parte dos professores, especialmente aqueles que não tiveram contato com jogos de tabuleiro na infância, o uso de board games em sala de aula tem sido um grande motivador. Aos alunos ficam mais engajados quando criam jogos. Os professores motivam que eles promovam até a venda desses board games em plataformas digitais e iniciem um negócio, disseram.

Da esquerda para a direita: Peterson Rodrigues, Gabriel Dantas e Fernanda Freitas. Foto: Divulgação, Headscon
Destaque na produção de games, HQ’s e animações no Acre, o criador do personagem Guardião Soturno, Francisco Moreira, explicou que passou a ter mais interesse na produção de games durante a pandemia. Atualmente ele cursa a graduação de jogos digitais e lidera o Mapinguari Estúdio. Ele disse que uma de suas maiores dificuldades atuais é a falta de mão de obra qualificada, e que promove concursos em escolas para fomentar a formação de futuros profissionais na área de games.
A plataforma Catarse também participou com Leandro Saioneti, que identificou semelhanças entre as dificuldades enfrentadas pelos segmentos no debate – ou seja, games e board games. Segundo ele, iniciativas como a Headscon são capazes de potencializar comunidades e gerar ideias e oportunidades. O gestor reforçou que a criação de comunidade é essencial para o sucesso de projetos coletivos financiados. E que há um padrão de construção de comunidade em projetos bem-sucedidos na plataforma de financiamento coletivo.
Representante da feira Diversão Offline, Lorena Belloti disse que os segmentos de jogos físicos e digitais “conversam” e compartilham públicos bastante próximos. Para ela, os segmentos culturais são entendidos pela população em geral apenas como lazer e entretenimento, mas há o potencial de mercado. Ela acredita que os atuantes profissionais dos dois setores não podem desistir, pois com a persistência e o tempo novos espaços vão sendo conquistados.

Da esquerda para a direita: Lorena Belloti, Francisco Moreira e Leandro Saioneti. Foto: Divulgação, Headscon
Dúvidas do público
Ainda sobre criação, o público perguntou do que, além de uma boa história, uma campanha de RPG precisa para se destacar e captar investimento. Para Rodrigues, o principal é que o jogo seja divertido. Saioneti reforçou, mais uma vez, que a construção de comunidades é essencial para obter sucesso.
Um deficiente auditivo que participou do painel expressou a falta de acessibilidade para surdos e autistas nos jogos. Lorena Belloti reconheceu a dificuldade, notando que nas feiras já há espaço dedicado para deficientes visuais, mas atender às necessidades dos deficientes auditivos ainda é um desafio. Gabriel Dantas pontuou, contudo, que os jogos de tabuleiro possuem uma dinâmica visual que facilita a adaptação para este público.