Formada pela UFAC, Gabrielly Moreira desenvolveu um jogo educativo para apoiar o letramento de crianças surdas
Por José Elias Rodolfo, da Agência Collab na Headscon Acre
Durante o painel “Cultura de HQ, jogos de tabuleiro e games”, realizado durante a Headscon Acre 2025, quem acabou roubando a cena foi a intérprete de Libras do evento, a acreana Gabrielly Moreira.
Entre perguntas, intervenções e um convite à reflexão, ela e o participante surdo Rivelino Nascimento Azevedo transformaram a conversa em um lembrete direto de que, sem acessibilidade, não existe inclusão real na cultura gamer.
Durante o debate, Rivelino pediu a palavra – em Libras – para falar sobre a experiência de pessoas surdas durante jogos e transmissões ao vivo. Entusiasta de títulos como Free Fire, Fortnite e Minecraft, ele afirmou esbarrar constantemente na mesma barreira: falta legenda, falta intérprete, falta alguém pensando nesse público desde o começo. Coube a Gabrielly fazer a interpretação e levar a pergunta dele ao microfone.
Segundo a intérprete, a ausência de pessoas surdas nesses ambientes de evento tem a ver com falta de estrutura. “Às vezes dizem: ‘A gente não vê surdo nesse tipo de evento’. Não vê justamente porque não tem acessibilidade. Eles gostam de jogos, gostam de música, de tudo. O problema é que muitos espaços ainda não estão prontos para recebê-los”, explicou.
Formada em Letras Libras pela Universidade Federal do Acre (UFAC), Gabrielly atualmente é intérprete e também pesquisadora. Ao longo da graduação, estudou educação bilíngue, escrita de sinais (SignWriting) e estratégias de letramento para crianças surdas – incluindo a criação de um jogo de cartas pensado especificamente para apoiar a alfabetização em Libras e em português escrito.
Essa vivência acadêmica sustenta o tom firme com que ela lembra algo básico que muitos ainda ignoram. “Libras é uma língua. Tem estrutura própria, modalidade visual e também tem escrita. Não é desenho, não é ‘português com mímicas’. É uma língua completa”, explica.
No painel, a discussão começou em HQs e jogos de tabuleiro, mas encontrou eco direto no universo digital. Gabrielly aproveitou a fala de Rivelino para evocar um ponto sensível da indústria de games: jogos e lives que simplesmente não consideram a pessoa surda na hora durante a experiência.

Gabrielly Moreira foi uma das intérpretes de Libras da Headscon Acre 2025. (Divulgação/Headscon)
“Tem jogo que até dá para jogar no mudo, mas em muitos casos o som é essencial. Sem recurso visual, sem vibração, sem legenda, essa pessoa deixa de jogar. Aí já não é nem mais sobre representatividade, é exclusão mesmo”, ela resume.
A intérprete também faz questão de diferenciar acessibilidade de “maquiagem”. De acordo com ela, não basta “cumprir tabela” chamando intérprete e jogando a janela de Libras minúscula em um canto de tela ou a muitos metros do público.
“Tem evento que chama o intérprete só ‘para inglês ver’. Se a câmera não mostra direito, se a iluminação não ajuda, se ninguém pensa onde a gente entra, isso não é acessibilidade, é enfeite”, critica.
A presença de Gabrielly na Headscon Acre 2025 não é isolada. Ela integra uma equipe de intérpretes que atuam no evento, ao lado de Eliane Oliveira Rebouças, Fofa Monteiro e Regiane Freire, garantindo que a programação chegue também ao público surdo.
Rivelino, por sua vez, é figura conhecida nesses espaços em Rio Branco e tem cobrado, edição após edição, que a acessibilidade não seja tratada como mero recurso opcional.
Apesar de não ser o objetivo inicial, o painel “Cultura de HQ, jogos de tabuleiro e games” acabou registrando uma cena que foge ao roteiro, mas diz muito sobre o futuro do setor. Se a promessa é que os games sejam para todo mundo, o caminho passa por dar voz a quem assiste à partida de fora da tela.
Desta vez, quem abriu essa janela foi a intérprete que entrou no auditório para “apenas” traduzir, mas saiu de lá como uma das vozes mais importantes do debate.