Produzir conteúdo ainda é viável? Criadores discutem nicho, constância e sobrevivência financeira

Na Headscon ES, painel reuniu nomes do jornalismo, do streaming e da TV para discutir se ainda é possível viver de conteúdo em um mercado tão fragmentado

Por Bruna Damin, da Agência Collab na Headscon Espírito Santo 2025

 

Em um cenário em que produzir conteúdo deixou de ser sinônimo de sucesso e passou a campo de resistência e reinvenção, quatro vozes experientes subiram ao palco principal da Headscon ES no sábado (8). A pergunta que enfrentaram, e que muitos preferem evitar: ainda dá para viver disso?

O painel contou com Pablo Miyazawa, cofundador do The Gaming Era, jornalista e ex-editor de grandes revistas de games; Leonardo Zalcman, apresentador da PlayTV; Antonio Freire, criador conhecido pelo canal antoniojoga; e Guto Barbosa, streamer e produtor especializado em entretenimento digital. 

Antônio, que integrou o time de talentos da Agência Collab no Acre em 2024, voltou nesta edição comandando um podcast oficial do evento — um exemplo claro de como networking pode se transformar em oportunidades reais de trabalho.

Pablo Miyazawa (direita) e Leonardo Zalcman, da PlayTV, em momento descontraído (Bruna Damin/Agência Collab)

Valor invisível 

Miyazawa abriu o debate apontando um dos maiores desafios da profissão de jornalista: fazer o público entender que o conteúdo tem valor e merece remuneração. Para ele, não se trata de “pedir”, mas de mostrar que o produto vale a pena e criar um ambiente em que as pessoas se sintam confortáveis para pagar por ele. O jornalista lembrou de colegas que sustentam carreiras com newsletters assinadas.

No jornalismo independente, a assinatura digital tornou-se uma das alternativas mais sólidas diante da queda das vagas em redações e da dificuldade em captar anunciantes — um contraste com a era das revistas impressas, quando a publicidade sustentava boa parte da produção editorial. 

Pablo lembrou que, antigamente, marcas tradicionais viam o público gamer como invisível. E ironizou: “parecia que jogador de videogame não comia, não andava de carro, não tinha conta bancária”.

Nichos apaixonados, grandes audiências

Se antes a meta era falar com o maior público possível, de acordo com os produtores de conteúdo na, hoje o nicho é visto como ativo valioso. Pablo destacou que ninguém mais tem vergonha de admitir que o público é pequeno, desde que apaixonado. 

Todos os participantes concordaram que essa mudança de mentalidade também afeta a noção de relevância.

Antonio, streamer e podcaster da Headscon ES. (Bruna Damin/ Agência Collab)

A conversa esquentou quando surgiu uma questão: qual métrica realmente importa para marcas e criadores? Antonio Freire defendeu que engajamento, autenticidade e carisma podem ser mais valiosos que grandes números absolutos. 

Ter milhões de seguidores não garante relevância, mas ter uma comunidade conectada e fiel pode abrir portas para parcerias mais consistentes. O argumento foi recebido com consenso no palco — mas, como ficou claro, não existe fórmula única.

Criação e sobrevivência

Para alguns criadores, o conteúdo publicado nos próprios canais já não é a principal fonte de renda. Antonio contou que hoje grande parte do seu trabalho está em produzir vídeos para marcas, muitas vezes sem que esse material apareça em seus perfis. 

Esse modelo garante estabilidade, mas levanta a questão sobre como manter a essência criativa quando se produz “para fora”.

Antonio e Guto Freire. (Bruna Damin/Agência Collab)

Guto Barbosa reforçou que, qualquer que seja o modelo, a constância é inegociável — mesmo que seja desgastante. Segundo ele, no fim do ano a pressão é dobrada, mas ainda assim é preciso entregar com qualidade e equilibrar as expectativas de público e clientes.

Entre os alertas levantados no painel, um dos mais fortes foi sobre o risco da impaciência. A busca por resultados rápidos pode levar criadores a abandonarem projetos antes que amadureçam. 

Mudanças bruscas de formato ou tema, motivadas por quedas momentâneas de alcance, podem minar carreiras que precisariam apenas de tempo e ajustes para prosperar.

Edição: Marcelo Gimenes Vieira